quinta-feira, 16 de outubro de 2008

" NO INTIMO PROFUNDO LICOR DE UMA ROSA "


" Vinicius de Moraes
No teu branco seio eu choro.Minhas lágrimas descem pelo teu ventreE se embebedam do perfume do teu sexo.Mulher, que máquina és, que só me tens desesperadoConfuso, criança para te conter!Oh, não feches os teus braços sobre a minha tristeza não!Ah, não abandones a tua boca à minha inocência, não!Homem sou beloMacho sou forte, poeta sou altíssimoE só a pureza me ama e ela é em mim uma cidade e tem mil e uma portas.Ai! teus cabelos recendem à flor da murtaMelhor seria morrer ou ver-te mortaE nunca, nunca poder te tocar!Mas, fauno, sinto o vento do mar roçar-me os braçosAnjo, sinto o calor do vento nas espumasPassarinho, sinto o ninho nos teus pêlos...Correi, correi, ó lágrimas saudosasAfogai-me, tirai-me deste tempoLevai-me para o campo das estrelasEntregai-me depressa à lua cheiaDai-me o poder vagaroso do soneto, dai-me a iluminação das odes, dai-me o [cântico dos cânticosQue eu não posso mais, ai!Que esta mulher me devora!Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha quero o colo de Nossa Senhora!
Poema extraído do livro "Vinicius de Moraes — Poesia completa e Prosa", Editora Nova Aguillar — Rio de Janeiro, 1998, pág. 262.Conheça a vida e a obra do autor em "Biografias".

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